logolaranjatop

 

 
 Associação Brasileira de Pesquisa e Pós-graduação em Artes Cênicas

 O Portal ABRACE está com uma

nova versão!

MOÇÃO DE REPÚDIO ENDEREÇADA ÀS INSTITUIÇÕES DE ENSINO SUPERIOR DE ARTES DO BRASIL

 

Sex, 06 de Maio de 2016 17:13

MOÇÃO DE REPÚDIO 
ENDEREÇADA ÀS INSTITUIÇÕES DE ENSINO SUPERIOR DE ARTES DO BRASIL

Juazeiro do Norte, 06 de maio de 2016.

Arte é uma expressão interessada na sociedade.
Mário de Andrade

Nós professores e professoras do Centro de Artes da Universidade Regional do Cariri – CArtes/URCA, quadro constituído após muita luta e negociação para abertura de concurso público de provas e títulos, por profissionais vindos de várias regiões do nosso país e de outros, com uma árdua trajetória de formação e criação artística, não compactuamos e não aceitamos a acusação de que transformamos “arte política em transtorno mental” que precisa de acompanhamento de órgãos como o SAMU ou da PM para ser apresentada. Essa situação não coaduna com nossas práticas educativas e artísticas.

Exercemos nosso ofício amparados nos princípios da liberdade, da construção de variadas poéticas, do respeito à diversidade, repudiamos com veemência o padrão hegemônico (sexista, machista, misógino, homofóbico e racista), somos convictos da capacidade transformadora e regeneradora das várias áreas artísticas em ação direta na sociedade, não numa visão romântica, porém como ação efetiva, justamente por constituirmos um quadro que leciona em licenciaturas em Artes Visuais e Teatro, em um contexto de ampliação do acesso ao ensino superior.

Portanto, lamentamos e, como brilhantemente a feminista e escritora nigeriana Chimamanda Adiche coloca, não compactuamos e muito menos perpetuamos a difusão de “histórias únicas”, relatos e depoimentos realizados e julgados a partir de visões parciais. Desta forma, mais uma vez, como ocorre historicamente em nosso país, o compartilhamento de uma única visão de fatos (e não de um fato isolado e distorcido) vem invalidando lugares de educação, de reflexão e de construção de criticidade nos quais professores e professoras atuam, que, neste caso, é uma universidade.

Não será a primeira vez e nem a última que profissionais de docência são colocados, sem serem ouvidos, no lugar do questionamento de suas condutas sem ao menos terem o direito de contarem a outra parte da história.

Ressaltamos para todas as organizações não governamentais, governamentais, pessoas físicas ligadas à associações, movimentos e coletivos artísticos, educacionais, políticos, culturais, acadêmicos e científicos, que desejarem, verdadeiramente, construir o princípio democrático tendo como instrumento as áreas das artes, que estamos abertos ao diálogo sobre o fato apontado pelo estudante, pois, há um histórico de ações promovidas pelo mesmo ao longo de sua indignação às normas institucionais existentes em quaisquer universidades do país e compreendidas pela grande maioria dos estudantes.

As performances têm sido apresentadas sistematicamente, semanalmente, quase diariamente pelo estudante sem que o mesmo fosse, em qualquer momento interrompido ou mesmo coagido pela direção do Centro de Artes da URCA ou por quaisquer de seus docentes ou funcionários. Na data de 04 de maio, uma professora foi informada por um colega do estudante que no dia seguinte haveria mais um ato com as presenças de pessoas alheias ao contexto e que, desta vez, poderia ser um ato mais violento. Tendo em vista que o estudante, em outra ocasião, já tinha cortado seus pulsos em ato performático, todos estavam de sobreaviso. O estudante já havia dito a alguns colegas e professores acerca de fragilidades psiquiátricas, nas quais não nos aprofundaremos para evitar a sua exposição, assim como confiou que estava abalado pela perda de seu pai ocorrida meses atrás.

Além disso, os estudantes que compõem o Centro Acadêmico já haviam procurado a Coordenação do Curso de Licenciatura em Artes Visuais para informar sobre sua preocupação com o colega, pois o mesmo poderia fazer mal a si ou aos demais. Ou seja, se configurava uma situação que NÓS docentes consideramos delicada sim! Ou nosso papel seria assistirmos a um estudante que estava abalado psicologicamente em uma performance que poderia atentar contra a sua integridade física? A performance que faz uso de ações que atentem à integridade física, pressupõem uma equipe de primeiros socorros a postos, bem como, neste caso, um termo de responsabilidade física do estudante. Haja visto a ausência de ambas as medidas de segurança, de fato, um colega preocupado chamou o SAMU que tem como procedimento, após analisar as ocorrências, comunicar e acionar a PM. Entretanto, a PM não adentrou a instituição por orientações dos próprios professores e professoras, da direção e do pró-reitor que assinou um termo de responsabilidade para salvaguardar o estudante. Enfatizamos que as medidas elencadas não são suposições, mas no nosso quadro de docentes há profissionais especializados na linguagem performática.

Por este motivo, salientamos que não se trata de silenciamentos, de maneira alguma. Não nos posicionarmos diante desse quadro seria uma omissão de nosso parte, e entendemos que professores e professoras prezam pela integridade física e psicológica de seus estudantes. Venham ao nosso campus e vejam todas as intervenções realizadas pelo estudante nas últimas semanas, nas quais denuncia as práticas homofóbicas, racistas e assediosas das quais se sente vítima, com as quais não nos identificamos. Esse histórico de manifestações encontra-se fisicamente aqui. Não o ameaçamos, não o coagimos, as salas estão em aula, apesar do clima instável e desconfortável que se instalou, apesar de muitos temerem represálias por pessoas externas ao campus, como já tem ocorrido.

A história única é um perigo, é uma realidade num país que tem se habituado às inverdades, à manipulação dos fatos e às atitudes que desrespeitam e agridem a vontade das maiorias (estudantes), e que com o devido respeito, às minorias. Não podemos reproduzir num espaço de construção de saberes que se propagarão na sociedade que queremos, as condutas questionáveis de estudantes, amparadas por ex-professores que tem agido de forma nada ética por motivações pessoais, sem que houvesse a mediação do diálogo para resolução de quaisquer questões de nosso desconhecimento ou discordância.

Prezamos o espaço da educação, da criação e questionamento na arte, da livre expressão. Repudiamos o preconceito, a censura, a opressão. Quantas universidades no Brasil possuem sanitários unissex? Quantas universidades possuem tantas minorias sociais em cargos de liderança? Quantas universidades possibilitam um ambiente seguro para que estudantes homens e mulheres professem suas paixões de juventude por seus pares de mesmo sexo nos espaços comuns? Quantas universidades trabalham as transversalidades voltadas às minorias em seus currículos? Nos conheçam primeiro. Não sejamos o que repudiamos.

O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons.

Martin Luther King Jr.

Assinam a CARTA ABERTA

Aline dos Santos Sousa

Alysson Amâncio de Souza

Andreia Aparecida Paris

Cecília Lauritzen Campos

Cecília Maria de Araújo Fereira (Cecília Raiffer)

Cícera Edvânia Silva dos Santos

Daniele Gomes de Oliveira

Daniele Quiroga Neves

Fábio José Rodrigues da Costa

Ilíada Damasceno Pereira

Jéssica Lorenna Lima Gonçalves

João Dantas Filho

Leonardo Ferreira

Luiz Renato Gomes Moura

Maria Odette Monteiro

Mateus Gonçalves

Mônica Viana de Mello

Pablo Diego Mane Solari

Patricia Caetano de Oliveira Antony

Raquel de Melo Versieux

Renata Aparecida Felinto dos Santos

Rodrigo Frota de Vasconcelos

Sérgio Henrique Carvalho Vilaça

Vanessa Raquel Lambert de Souza

Com a solidariedade de funcionários e funcionárias, à saber, Cícero Danúbio Xavier Lins e Pedro Weslei de Oliveira Silva.

 

Associação Brasileira de Pesquisa e Pós-graduação em Artes Cênicas.

Instituto de Artes - UFU, sala 3E -137
Avenida João Naves de Ávila, 2160 - Santa Mônica - Uberlândia - MG 38408-100

Gestão UFU 2015-2017

(34) 32394280 - secretaria.abrace.ufu@gmail.com