Curadoria: Michel Queiroz (IFG Cidade de Goiás)
Coordenação: Professor Dr. Dalmir Rogério Pereira (UFG)
É com grande alegria que a XIII Reunião Científica da Associação Brasileira de Pesquisa e Pós-Graduação em Artes Cênicas (ABRACE) com a temática Cerrado de Corpo Inteiro: quem fomos, quem somos, quem queremos ser apresenta na cidade de Goiás-GO a Primeira Edição da Mostra de Cinema Ambiental e Ecoperformances do Cerrado. A Mostra reúne sete filmes de curta metragem realizados por discentes e egressos do Instituto Federal de Goiás – Câmpus Goiás, propondo um recorte plural de narrativas sobre o presente a partir da lógica de permanência e suas particularidades emergentes na relação corpo, política, Cerrado goiano e memória.
Como primeiro filme a Mostra traz “Permanências” (2026) de Daniel Bandeira que evoca a dimensão do filme-manifesto ao retratar a mobilização da comunidade acadêmica e da sociedade civil diante das ameaças de redução ou fechamento de ofertas de Cursos ligados às Licenciatura de Artes Visuais e ao Bacharel de Cinema e Audiovisual no Instituto Federal de Goiás (IFG — Câmpus Goiás). A obra registra uma disputa que ultrapassa a própria instituição: trata-se do direito à formação artística, à cultura, à produção de conhecimento e à permanência de um campo de criação na Cidade de Goiás.
Na sequência, o filme Relatos Tecnopobres (2019) de João Batista propõe um olhar distópico em relação aos avanços tecnológicos como estratégia de manutenção de poder. Em oposição à chamada “ciberburguesia”, grupos marginalizados desenvolvem formas próprias de resistência a partir de tecnologias precárias, improvisadas e acessíveis. A obra tensiona a ideia de progresso tecnológico ao revelar como determinados avanços também podem produzir exclusão, controle e apagamento. A tecnologia, nesse universo, torna-se território de disputa entre hegemonia e insurgência.
No terceiro filme Cerrateou (2023) de Henrique da Rocha Hernandes, o Cerrado é apresentado em sua abundância e complexidade, mas também diante da violência provocada pela ação humana. A devastação, as queimadas e as transformações da paisagem convivem com entidades, rituais, sons e vibrações que estabelecem uma relação sensível entre corpo e território. O filme desloca o olhar sobre a natureza: o Cerrado não é apenas aquilo que está diante do corpo, mas aquilo que também o atravessa. Essa perspectiva amplia a compreensão de território e convoca outras formas de escuta, percepção e relação com a terra.
Por sua vez, Embaixo do Pé de Pequi (2024) de Maiári Iasi encontra na animação uma forma delicada de acessar a memória e a ancestralidade. A relação entre uma criança e sua avó constrói uma narrativa atravessada pelo afeto, pela oralidade e pela transmissão de saberes. As cores, a narração e a delicadeza dos gestos fazem do filme um espaço de encontro entre gerações, onde a memória familiar também se transforma em memória de território.
Assim como YbyApin (2026), terceira animação do artista visual Murilo Ribeiro, o Cerrado deixa de ocupar uma posição secundária para assumir o centro da narrativa. Por meio de traços manuais e do stop-motion, o filme percorre as cicatrizes deixadas pela ação humana sobre a terra. A palavra que dá título ao filme remete à ideia de uma terra raspada, despida, ferida. A animação cria, assim, uma experiência sensorial que convida o espectador a perceber o chão não como superfície inerte, mas como organismo vivo e território de pertencimento.
Rio das Pedras Brilhantes (2026) de Michel percorre experiências de vida, deslocamentos e territórios entre Itaberaí e a Cidade de Goiás. Ao afirmar “não sou homem e nem sou mulher, eu sou uma ameaça ao cistema”, Jáder tensiona as categorias normativas que organizam os corpos e as identidades. O filme também atravessa a memória de Morgana, adolescente trans brutalmente assassinada, transformando a lembrança de sua vida em gesto de afeto, resistência e permanência.
No fechamento da Mostra, Entre Raízes (2026) Vincent Glen Gielen ganha uma dimensão de homenagem. O documentário narra a trajetória de Maria Luiza, mestra de saberes tradicionais que dedicou mais de 35 anos de sua vida à disseminação da medicina natural e à promoção de saúde e autonomia nas comunidades rurais do interior de Goiás por meio do conhecimento das plantas e das práticas tradicionais de cuidado. Dona Maria Luiza faleceu em 30 de setembro de 2026, às vésperas desta Mostra, e sua trajetória passa a ser lembrada por meio do cinema e das pessoas que tiveram contato com seu trabalho. Sua participação no filme registra não apenas uma história individual, mas parte de um patrimônio de conhecimentos construídos coletivamente no interior de Goiás.
Assim , os filmes selecionados para essa Mostra colocam em relação diferentes formas de permanência: a permanência da/e na Universidade; a defesa do território; a transmissão da memória e da ancestralidade; a afirmação dos corpos dissidentes e a construção de memória. O que aproxima essas narrativas é justamente a compreensão de que permanecer também é um ato político. Permanecer na terra, na universidade, na memória, no corpo, na arte, na ancestralidade ou na própria possibilidade de imaginar futuros.
Ao reunir essas produções, a Mostra evidencia uma produção audiovisual que nasce no interior, mas que não se limita a representar o interior. São filmes que produzem pensamento a partir do Cerrado e fazem do cinema um espaço de escuta, enfrentamento, invenção e permanência.
Mostra que afirma o cinema como lugar de encontro e ocupação do imaginário. Uma produção audiovisual que nasce no interior, no Cerrado goiano, mas que não se limita a representar esse território. São filmes que pensam a partir do Cerrado, que fazem do cinema uma prática de escuta, enfrentamento, memória, invenção e permanência — e que encontram na XIII Reunião Científica da Associação Brasileira de Pesquisa e Pós-Graduação em Artes Cênicas (ABRACE) a possibilidade de reconhecimento do diverso.

Michel Queiroz
Minibiografia: Michel Queiroz possui formação na Escola de Cinema Darcy Ribeiro, Escola Artes Visuais – Parque Laje. Atualmente cursa Bacharelado em Cinema no Instituto Federal de Goiás. Teve sua estreia como Diretor, Produtor e Montador com o os filmes Capim-Navalha 2021-2026. E já tem sua trajetória cinematográfica em Festivais e Mostras, com premiações ao longo da sua carreira.
